Entrevista sobre Consumo Sustentável com Ana Tereza Caceres.

Entrevista sobre Consumo Sustentável com Ana Tereza Caceres.

Por Fernando Rebouças

Recentemente, a editora Unesp publicou o livro Consumo Sustentável – Conflitos entre necessidade e desperdício, escrito pelas professoras Ana Tereza Caceres Cortez e Silvia Aparecida Guarnieri Ortigosa.

Para aprofundar mais o assunto para os estudantes, o site Agenda Pesquisa e Agenda do Vestibular entrevista a autora do livro, Ana Tereza Caceres, professores e pertencente do Departamento de Geografia, IGCEUNESP de Rio Claro (SP).
1 – O que é Consumo Sustentável, e quando esse conceito surgiu?

A ideia principal do consumo sustentável (responsável ou consciente) é a de promover a reflexão dos hábitos de consumo da população, despertando a consciência ecológica, já que o atual modelo de produção e consumo tem sido um dos principais responsáveis pelo processo de degradação ambiental. A ideia e proposta do consumo sustentável surgiu gradualmente ao longo das gerações, sendo que nesse percurso histórico, três fatores atuaram conjuntamente: o ambientalismo público da década de 1970, a ambientalização do setor público da década de 1980 e a emergência da preocupação empresarial sobre o impacto que os estilos de vida e hábitos de consumo têm no meio ambiente da década de 1990.

2 – Quais os principais conflitos gerados pelo Consumo Sustentável na atual sociedade?

O principal conflito é combater os estímulos ao consumo em uma sociedade capitalista, já que, na reflexão do CS, o consumidor deve adquirir somente o que for necessário para suprir suas necessidades básicas de sobrevivência, evitando, a aquisição de produtos supérfluos e o desperdício. Outro conflito é moderar a produção, principalmente dos países ricos que possuem uma economia fortemente capitalista (ex: EUA) e os países emergentes cuja economia está em constante e rápido crescimento (ex: China).

3 – Quais oportunidades de emprego o Consumo Sustentável pode gerar para os jovens estudantes de hoje?

São os chamados “empregos verdes” que se tornaram uma espécie de símbolo em economias e sociedades mais sustentáveis, capaz de conservar o meio ambiente para as gerações atuais e futuras e assim,  garantir mais igualdade e inclusão para as pessoas e países.

Os empregos verdes em economias emergentes e países em desenvolvimento oferecem oportunidades para gerentes, cientistas e técnicos, mas beneficiam, principalmente, uma parcela significativa da população jovem, que necessita ser capacitada e preparada para conhecer e entender o mundo em que vive. Para a busca pelo padrão ambiental sustentável, será necessária uma mudança drástica rumo a um desenvolvimento limpo e às economias verdes com baixas emissões de carbono em todo o mundo.

4 – A questão da substituição das sacolinhas plásticas nos supermercados se tornou num símbolo do comportamento não sustentável do brasileiro?

Esse é um dos exemplos,mostra como é difícil a mudança de hábitos entre a sociedade brasileira. Tínhamos conseguido um avanço muito importante introduzindo a  sacola retornável nas compras do brasileiro, mas , infelizmente, houve um retrocesso, uma involução” mediante a pressão dos comerciantes e dos consumidores. Temos que retornar a essa luta com urgência.

5 – No livro de vocês há uma profunda descrição a respeito do Consumo Sustentável nos espaços urbanos. As cidades são o principal elemento transformador do consumo?

As cidades sempre foram espaços de consumo por excelência. E no caso das sociedades atuais, com o estilo de vida diferente de décadas passada, onde impera o consumismo e o desperdício, é visível a característica de elemento transformador do consumo nesses espaços. É quase impossível compreender o urbano sem as compras e como destacam alguns estudiosos, os centros comerciais representam na atualidade, um lugar fundamental no quotidiano urbano do cidadão, apelidados de novas catedrais contemporâneas.

6- Numa visão geral, nos anos 2010, qual é o país mais avançado no Consumo Sustentável?

A questão central é o aumento e o “inchaço” das cidades, templos da produção e consumo. Além disso, os países almejam sempre a inclusão econômica da população, mas tal fato tem o lado perverso, ou seja, os impactos que geram no ambiente e na própria sociedade. É difícil falar em país mais avançado no CS; há sociedades com um superconsumo (como os EUA) e algumas com subconsumo, desnutrição e fome (como alguns países da África). Talvez possamos mencionar sim sociedade sustentáveis, com estilo de vida não baseado em alto consumo, e sim num quotidiano mais simples, com menos “necessidades fúteis” e assim, menos impacto ao meio ambiente. E isso, pode ser observado em qualquer país.

7 – O Brasil ainda possui elementos naturais favoráveis para se tornar sustentável, ou estamos desperdiçando nossas bases e talentos naturais?

Nos últimos anos, o Brasil já obteve um bom avanço com relação à conservação dos recursos naturais e a conscientização sobre a necessidade de um consumo mais consciente. Ainda possui recursos naturais para se tornar sustentável, devido a sua grande extensão e suas riquezas naturais. No entanto, nos estados mais populosos e industrializados, ainda impera o alto consumo e o desperdício. É necessário insistir na Educação Ambiental, formal e informal; nas campanhas educativas e de informação, na aplicação de multas e sanções aos que não cumprem seu dever e não obedecem as leis.

8 – Em nível ambiental, como vocês enxergam o mundo em 2.100?

A visão do lucro ainda deve imperar nas sociedades das próximas décadas e o desejo de se conseguir um estilo de vida baseado no superconsumo ainda será observado principalmente nos países emergentes e na ascensão das classes sociais. Mas, as nações (governantes e os vários atores da sociedade) estão preocupadas com o futuro dos recursos naturais, fonte de matéria prima para a sobrevivência do homem. Por outro lado, a preocupação com a poluição ambiental, onde o descarte de lixo é um dos fatores principais, já vem sendo debatida e alvo de estudos no mundo todo. As novas tecnologias e o conhecimento humano seguramente irão traçar caminhos para uma situação  mais adequada daqui 100 anos.

9 – Deixe suas conclusões finais.

A discussão não é simplesmente reduzir o consumo, mas consumir diferente e saber como lidar com os efeitos colaterais causados pelo consumo desenfreado, com o desperdício e descartes inadequados. Mudanças de comportamentos e hábitos de todos devem estar presentes nas políticas e programas dos governos nas esferas Federal, Estadual e Municipal.  As empresas e a sociedade dos próximos anos devem estar atentas a necessidade de uma melhor forma de produção, de se poupar matéria prima da natureza e da colaboração com os processos de coleta seletiva para posterior  reciclagem.

Há necessidade do engajamento de todos, um grande desafio para as próximas décadas sem dúvida alguma!

Leia o livro :

http://www.editoraunesp.com.br/catalogo/9788571397149,consumo-sustentavel

 

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