Estudos literários do Brasil – Entrevista com Benedito Antunes e Sandra Ferreira

Estudos literários do Brasil – Entrevista com Benedito Antunes e Sandra Ferreira

Por Fernando Rebouças

O livro “Estudos literários do Brasil contemporâneo”  reúne trabalhos elaborados para o 11° Seminário de Estudos Literários, realizado na Unesp, em Assis, no mês de outubro de 2012. Evento homenageou os 50 anos de um dos mais importantes eventos da área de Letras do Brasil, o Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, ocorrido em julho de 1961.

O livro foi lançado em 2014, pela editora Unesp, sendo organizado por Benedito Antunes e Sandra Ferreira e conta com textos de autores renomados, como o poeta e escritor, Affonso Romano de Sant’Anna, Antônio Cândido, entre outros.

Temos a oportunidade de entrevistar os organizadores do livro, numa tentativa de construir um raio-x da literatura brasileira no seu contexto artístico e social. As respostas foram redigidas pelo autor Benedito Antunes. 

1 – Em tempos de livros impressos de cunho fortemente comercial e de livros digitais, por meio dos quais, qualquer escritor pode se tornar um “escritor”, a crítica literária consegue dar conta de acompanhar e analisar a crescente evolução da literatura atual em seus diferentes estilos? 

Resposta: Não, não consegue. Nem me parece que tenha esse propósito. Mesmo porque se tornou difícil falar hoje em uma crítica literária. Assim como as formas de publicação literária se multiplicaram e se diluíram em diversos veículos, as avaliações críticas ocorrem de diferentes modos nos mais variados suportes, como jornais, revistas, periódicos, blogs, posts diversos e também nos meios acadêmicos, que podem ou não interagir com os veículos mencionados. O que há de comum nessas formas de críticas são a superficialidade, o imediatismo e interesses pontuais, mais do que abordagens aprofundadas e preocupação com grandes sínteses. Por outro lado, analisar a evolução da literatura atual é um problema teórico mais complexo. Normalmente, essa avaliação abrangente, com a preocupação de abarcar as dominantes de um período, é trabalho que se faz posteriormente. Apesar de os grandes críticos, e eles ainda existem, serem capazes de intuições iluminadoras, a sedimentação histórica leva tempo, e de certa forma interessa pouco ao consumidor de literatura contemporânea. Assim, caberá ao historiador estabelecer retrospectivamente essa evolução. Atendo-me, porém, ao substrato da pergunta, que leva em consideração a publicação do livro 50 anos depois: estudos literários no Brasil contemporâneo, acrescentaria uma característica dos ensaios reunidos no livro: trata-se de abordagens que privilegiam um ângulo particular e mesmo pessoal, como é o caso de Affonso Romano de Sant’Anna, que trata da poesia nos últimos 50 anos com base em sua experiência de professor, crítico e poeta. Essa visada pessoal toma como referência inicial sua participação no II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, realizado em 1961, para traçar um panorama da evolução da poesia nesse período. De certa forma, o mesmo se verifica nos demais ensaios, cujos autores são em sua maioria também professores e escritores, como Carlos Felipe Moisés, Ítalo Moriconi, Paulo Franchetti, Miguel Sanches Neto, João Silvério Trevisan.

2 – Num dos trechos do livro, é mencionado a respeito da morte da poesia no século XX. Atualmente, no início do século XXI, as músicas de baixa qualidade poética estão empurrando a boa poesia para novas plataformas como blogs, grupos no Facebook e saraus, sem foco de popularização. Essa é a morte da poesia? 

Resposta: Não tenho condições de fazer uma avaliação consistente a respeito da suposta morte da poesia na contemporaneidade. No trecho do livro em que se baseia a pergunta, parece-me que a morte da poesia esteja associada a um tipo de poesia, aquela comprometida de uma determinada forma com o seu tempo. Por isso o autor fala em “ilusões perdidas”. O que se poderia afirmar com alguma segurança é que a literatura de um modo geral e a poesia em particular de há muito vêm morrendo e renascendo. Ela, na verdade, transforma-se permanentemente. A boa poesia continua a ser produzida e divulgada em livros e em plataformas digitais, como blogs ou redes sociais. Já vi bons livros serem divulgados integralmente no Facebook e depois assumirem a forma impressa tradicional. Em suma, tanto a poesia continua a ser praticada como sua divulgação impressa ainda não foi totalmente suplantada pela circulação em meios digitais. Resta o problema de se saber se ainda é possível surgir, em meio a essa proliferação de poetas de todos os níveis, um grande poeta nos moldes do século XX, como Bandeira, Drummond, Cabral. Tendências como a poesia marginal já indicavam a intenção de se acabar com a poesia oficial, isto é, produzida em meios reconhecidos como literários e publicada pelas grandes editoras.

3 – Considerando os últimos 50 anos, houve um processo de descolamento da literatura com a sociedade? A literatura brasileira não representa mais o país? 

Resposta: Acredito que a literatura brasileira continue a representar o País, de um modo ou de outro. Talvez não possamos perceber uma representação semelhante àquela feita pelo romance de grandes escritores, como Machado de Assis, Mário de Andrade, Guimarães Rosa. Menos ainda uma representação como a que procuraram conscientemente fazer outros escritores, como Lima Barreto, José Lins do Rego, Graciliano Ramos. Ou ainda a representação feita por poetas como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Mas, certamente, a literatura contemporânea continua representando o Brasil na medida em que trata, direta ou indiretamente, de seu povo, de suas mazelas e conflitos. Considerando o universo de autores que conheço um pouco, citaria como exemplo a obra de Ferreira Gullar, Milton Hatoum e Chico Buarque, e não apenas o romancista, mas também o compositor e o dramaturgo. Entendo que sua obra representa e questiona o Brasil recente como poucas.

4 – Por que os novos escritores brasileiros não emergem como Best Sellers no mesmo ritmo de escritores iniciantes nos EUA, Europa e Austrália? 

Resposta: Também neste caso, humildemente declaro que não tenho estudado o assunto para dar uma resposta que vá além do palpite. E no nível deste, penso que o Best Seller dependa mais da organização da indústria cultural do que da criação literária. Neste sentido, parece que, com a internacionalização das editoras, elas não apenas passarão a publicar mais os autores de sucesso mundial, como procurarão estimular os autores locais. É sintomático que escolas de criação literária, tão comuns nos EUA, por exemplo, já comecem a se difundir entre nós. Se se observar a trajetória do próprio Paulo Coelho, conclui-se que, no Brasil, ele dependeu menos de editoras que investissem no seu produto do que de seu projeto pessoal de se tornar um autor de sucesso. No Exterior, os agentes literários cuidam dele com muito mais profissionalismo. Isso faz que ele tenha mais sucesso fora do que no Brasil, chegando a ser considerado um autor desenraizado, o que talvez represente uma condição para se tornar um Best Seller mundial. Mas é preciso lembrar que o Brasil produz outras espécies de Best Sellers além de Paulo Coelho. As telenovelas são largamente consumidas no País e se tornaram também produtos de exportação.

5 – Machado de Assis nasceu numa periferia, e mesmo não tendo estudos de alto nível, se tornou um dos maiores gênios da literatura nacional. Na literatura brasileira atual, a genialidade ainda surge nas periferias? Elas são aceitas pelo mercado editorial? 

Resposta: Quando se vincula Machado de Assis à periferia, normalmente se pensa na condição periférica do Brasil em relação ao mundo desenvolvido. Dessa perspectiva, ele escreveu numa língua pouco difundida no mundo, o que limitou a leitura de sua obra. De outro lado, abordou uma sociedade capitalista pouco desenvolvida, o que poderia ter limitado sua compreensão e formalização dessa sociedade em termos universais. Sua genialidade, porém, superou esses limites, e ele é hoje não só lido e estudado no Exterior como tem sido reconhecido como um dos grandes romancistas do século XIX. Nesse processo, não se pode confundir educação escolar com a formação desenvolvida por conta própria. Machado, além de genial, é um dos autores brasileiros mais cultos. E esta talvez seja uma grande carência dos autores contemporâneos, nos quais se observa um generalizado baixo nível cultural, sempre com algumas exceções, claro. 

6 – Para os próximos 50 anos, o que podemos esperar de melhor em nossa literatura? 

Resposta: Aqui também não é fácil dar uma resposta muito consistente e precisa. Em todo caso, é sempre possível ser otimista, pois a grande quantidade de autores e a ampliação do público leitor acabam criando condições favoráveis ao surgimento de uma boa literatura. Minha aposta é mais modesta. Espero que o Brasil consiga educar o público leitor. A escola tem um papel fundamental nesse aspecto, mas ela tem contribuído mais para levar os alunos a se desinteressarem da literatura do que a iniciá-los efetivamente na leitura de bons autores. Se nossa educação melhorar nos próximos 50 anos – e chamar isso de otimismo é um exagero, pois o prazo é longo à beça –, é possível que tenhamos uma literatura ainda melhor no futuro, não importa o que venha a ser a literatura daqui a 50 anos.

7- Deixem suas considerações finais.

Resposta: Minhas respostas foram elaboradas da perspectiva do educador, que não se preocupa muito com o mercado. Este é suficientemente capaz de cuidar de seus interesses. Por isso, a indústria cultural saberá criar autores de sucesso quando for necessário ou possível. Já uma literatura mais exigente, capaz de dar forma às questões humanas essenciais, depende de um avanço cultural, em que a escola ainda desempenha um papel relevante. Mesmo que, em última instância, toda a produção literária passe por uma validação do mercado, é sempre possível distinguir a que tem abrangência universal e duradoura da que visa ao consumo imediato. Uma boa formação deveria proporcionar condições para que o leitor faça essa distinção.

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