Febre Amarela – Entrevista

Febre Amarela – Entrevista

Por Fernando Rebouças

Segundo a FIOCRUZ,  a febre amarela é uma doença infecciosa grave, causada por vírus e transmitida por vetores. A febre amarela ocorre nas Américas do Sul e Central, além de em alguns países da África e é transmitida por mosquitos em áreas urbanas ou silvestres. O aumento do número de casos de febre amarela em 2017 despertou a atenção das autoridades em Saúde do país. Combatida por Oswaldo Cruz no início do século 20 e erradicada dos grandes centros urbanos desde 1942, a doença voltou a assustar os brasileiros, sendo detectada uma mutação inédita no vírus da doença em pesquisa realizada pelos laboratórios da FIOCRUZ,

Entrevistamos a professora Maria Renilda Barreto, do CEFET/RJ, especialista em História das Ciências para esclarecermos sobre a doença e sua história no Brasil e o professor Anderson Malaquias, doutorando em Ciências, Tecnologia e Educação pelo CEFET/RJ.

1 – O impacto que a febre amarela causa atualmente no Brasil é o mesmo registrado na primeira metade do século XX?

MRB: A febre amarela é uma doença conhecida no Brasil, desde os tempos coloniais, contudo, a primeira grande epidemia ocorreu no século XIX, em 1849-50. Foi uma experiência traumática e devastadora uma vez que o ciclo da doença levava a pessoa a óbito em poucos dias, em quadros bem marcantes, como o “vômito negro”, ou seja, vômito hemorrágico. Entretanto, apesar da dramaticidade da doença em sua manifestação aguda, o índice de mortalidade variava  em cada ciclo epidêmico, podendo atingir de 10% a 50% da população de uma cidade.  Isso significa que a febre amarela precisa ser compreendida como um processo biológico e social, demarcado pelo contexto histórico.

A partir de 1870, com o crescimento da teoria microbiana das doenças, a causa da febre amarela,  seus sintomas, os meios de transmissão e as medidas profiláticas foram se tornado mais perceptíveis para os médicos,  para o Estado e para a sociedade, de modo geral. Chegamos ao ano de 1958 com um controle nacional da doença, onde os casos eram mínimos, e passava-se anos sem registro algum da doença. Portanto, o reaparecimento de casos de febre amarela em 2017 foram infimamente menores que os registrados nas grandes epidemias do passado, porém, não menos preocupantes.

2 –  Questões ambientais como desmatamento, poluição de rios e lençóis freáticos e ausência de redes de esgoto em regiões urbanas e rurais pode propiciar o aumento do contágio?

AM: Como dissemos uma doença precisa ser entendida em seu contexto biológico e social. É evidente que a degradação ambiental, seja  rural ou urbana, provoca desequilíbrios ambientais que retornam a sociedade que os gerou de diferentes maneiras.

3 – O acidente ambiental ocorrido na cidade de Mariana, estado de Minas Gerais, ocorrido em 2015, pode ter enfraquecido o natural “cinturão” de proteção que a fauna e a flora naturalmente ofereciam à contenção do vírus da febre amarela no ciclo biológico na Mata Atlântica do sudeste brasileiro? 

MRB: Foi levantada essa hipótese, mas ainda não há certeza dessa relação de causa e efeito.

4 – O aquecimento global e o aumento da temperatura registrado no país, principalmente, na estação do verão pode ser outra causa direta para o aumento do número de casos de febre amarela?

MRB: A dispersão de alguns vetores pode ter relação direta com questões socioambientais. No Brasil, o clima tem importância relevante para o aumento da população do mosquito transmissor da febre amarela, pois proporciona, nas estações quentes e chuvosas, uma maior disponibilidade de criadouros e condições favoráveis para proliferação deste vetor.

No século XIX os habitantes do Rio de Janeiro diziam que “ano de mangas, ano da febre amarela”. O que esse dito popular deseja expressar? Que no verão – estação das mangas – a doença reaparecia. Hoje sabemos que a febre amarela é uma doença infecciosa, causada por vírus e transmitida por vetores – o mosquito  Haemagogus em áreas florestais e o mosquito Aedes aegypti em áreas urbanas. Temos conhecimento que o ciclo de vida do mosquito transmissor leva de 7 a 10 dias, preferencialmente em temperaturas entre 25oC a 30oC . Em temperaturas abaixo de 5oC e acima de 42oC eles têm mais dificuldades de sobreviver. Assim sendo, essa hipótese ambiental precisa ser estudada antes de se tornar uma “verdade”.

5 – Além da vacinação, quais seriam as soluções cabíveis para o governo e a sociedade evitar uma epidemia?

AM: Os casos que se sucederam recentemente no Brasil foram de febre amarela silvestre, onde as pessoas que foram contaminadas tiveram exposição ao vírus quando entraram em um ambiente de mata/rural e foram picados pelo mosquito infectado. Houve uma grande preocupação governamental, a partir do aumento significativo dos casos, com a possibilidade de reintrodução da febre amarela em zonas urbanas, onde a transmissão se daria pelo mosquito Aedes aegypti, vetor altamente adaptado a este ambiente e responsável pela transmissão de outras importantes doenças epidêmicas, como a dengue, zika e chicungunya.

Como não existe tratamento específico para os casos de febre amarela, a vacinação se apresenta ainda como principal ferramenta de prevenção e foi preconizada pelos agentes de saúde, nesse período emergencial, para o controle da doença. Ela é eficaz, segura e duradoura, conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Outras medidas profiláticas podem ser somadas ao processo vacinatório como: o controle do vetor e a proteção contra a picada de mosquitos com o uso de repelentes e roupas protetoras. Porém, diante de algumas dificuldades como as mudanças climáticas e a falta de saneamento básico, a luta hoje contra o mosquito transmissor se revela como um trabalho árduo e complexo. Um dos desafios que se estabelecem aos governos é o de engendrar mecanismos técnicos e operacionais eficazes que combinem o engajamento da população em ações de combate ao mosquito e seus focos de proliferação, com ações verticais que organizem a atuação de prefeituras, governadores e a União, num estado de cooperação permanente e não apenas nos momentos de crise.

6 – Há relatos isolados de pacientes de diferentes idades que faleceram ou passaram mal depois de serem vacinados. Reações à vacina contra a febre amarela também foram registradas nos tempos de Oswaldo Cruz?

MRB: Na verdade, as ações de combate à febre amarela, realizadas por Oswaldo Cruz no início do século XX, focaram na execução de campanhas sanitárias que buscavam eliminar os focos do mosquito transmissor, uma vez que na ocasião ainda não existia uma vacina eficiente para a doença.  Estas ações consistiam, dentre outras, na implantação de brigadas que percorriam casas, quintais, ruas e colocavam em prática, de forma meticulosa, medidas de controle e eliminação dos criadouros dos mosquitos. Paralelamente, o aumento de casos de varíola assolava a população carioca. Foi para enfrentamento deste problema que a ferramenta vacinal foi utilizada. Campanhas de imunização compulsória contra a varíola foram capitaneadas por Oswaldo Cruz e trouxeram descontentamento e oposição de diversas camadas da população. Apesar das desconfianças e enfrentamentos, os projetos de Cruz acabaram prevalecendo e em 1907 a febre amarela foi considerada erradicada do Rio de Janeiro. Já as reações contundentes da população contra a vacina da varíola foram amenizadas ocorrendo uma grande adesão às campanhas de imunização quando uma nova e violenta epidemia de varíola atingiu o Rio de Janeiro em 1908.

A história da vacinação data do final do século XVIII (1797) quando o britânico Edward Jenner (1749-1823) observou o fenômeno de proteção contra a varíola nas pessoas que cuidavam de bois acometidos com uma doença similar. A partir daí Jenner desenvolveu a vacina que era inserida em homens e mulheres, fazendo aparecer no local da inoculação erupções parecidas com a varíola. Simplificando, esse processo significava que a doença “enfraquecida” era introduzida no organismo humano, esse produzia anticorpos que imunizava aquela pessoa em relação a varíola. O esforço que o organismo fazia para se defender do “invasor” provocava um estado de adoecimento na pessoa vacinada, podendo ter febre, dores no corpo e outros sintomas. Isso apavorava as pessoas que não eram informadas sobre tal reação.

No início do século XX, na cidade do Rio de Janeiro, quando algum vacinado vinha a óbito a imprensa e os opositores políticos do governo, atribuíam a morte à vacinação. Isso em nada ajudava a população e só espalhava o pânico. Não era discutido o resultado positivos da vacina que se mostrou eficiente para controle de epidemias em fins do século XIX e início do XX, no Brasil. Assim, a população  – que sofria com alto custo de vida, desemprego, carência de moradia, insatisfação com a falta de participação política – utilizou a vacinação obrigatória como estopim para uma revolta na cidade do Rio de Janeiro.

7 – Quais fatores históricos e biológicos poderiam implicar na mutação de um vírus como o da febre amarela?

AM: As doenças provocadas por vírus são, geralmente, endêmicas. Porém, podem apresentar incidências intensas e periódicas decorrentes de eventos ecológicos e da dinâmica das populações. A mutação observada pelos pesquisadores da FIOCRUZ no vírus da febre amarela aponta para modificações no arranjo de proteínas relacionadas à replicação viral, o que sugere uma vantagem seletiva e ampliação da capacidade de infecção e disseminação da doença.

Em linhas gerais, as mutações são erros que acontecem durante o processo de replicação ou reparação do material genético (DNA/RNA) de um ente biológico. Elas podem ocorrer naturalmente ou, por vezes, induzidas pela ação de fatores ou pressões ambientais que produzem danos ao material genético. Mas no caso da mutação do vírus da febre amarela, ainda é cedo e difícil de se mensurar o impacto, as implicações biológicas e epidemiológicas destas alterações, devido a prematuridade das pesquisas e investigações que estão em curso.

8 – Cientistas avisam que, geralmente, a febre amarela pode ser assintomática no primeiro estágio. Já existem algum tipo de exame para identificar o vírus no paciente?

AM: Segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia a febre amarela pode se manifestar de forma assintomática, leve, moderada e maligna, com casos de óbitos girando em torno de 5% a 10%, podendo atingir até 50% para as manifestações graves da doença. A hipótese de febre amarela deve sempre ser cogitada e investigada nos casos de incidência de febre em pessoas que tiveram contato com áreas endêmicas ou de disseminação da moléstia há pelo menos 10 dias.

Os sintomas inicias da febre amarela podem ser confundidos com os de outras doenças transmitidas por mosquitos como a dengue e a malária. Deste modo, para que seu diagnóstico seja preciso, existe a necessidade de realização de exames laboratoriais que variam desde um exame de sangue tradicional (que pode não detectar anormalidade para os casos assintomáticos), até exames diagnósticos mais específicos que consistem em exames moleculares, sorológicos ou de isolamento do vírus em cultura especial. Estes exames geralmente são realizados em laboratórios.

9 – Diferentes unidades de saúde em 2017 sofreram com o baixo número de vacinas disponíveis e despreparo (em menor número) de equipes de saúde para a aplicação da vacina. Na sua opinião, o estado brasileiro está sendo falho na produção e veiculação de uma campanha mais robusta para treinar profissionais de saúde e informar a população?

MRB: O estado brasileiro, no último ano, diminuiu drasticamente os investimentos em pesquisa, produção de vacinas, estímulo/financiamento a ciência e tecnologia, educação, infraestrutura e urbanização. As campanhas são importantes, e isso não se questiona, mas, o processo de educação e informação sobre a manutenção da saúde deve ser permanente e não se restringir aos períodos de publicidade.

10 – Um estrangeiro que sai de seu país para visitar o Brasil deveria tomar a vacina antes de viajar?

MRB: Esse é uma medida que faz parte de um protocolo internacional de prevenção da doença. E, tal cuidado deve ser tomado também pelos brasileiros que se deslocam para áreas com registro da doença, dentro e fora do Brasil.

11 – Você consegue prever se teremos novas epidemias de doenças tropicais no Brasil e no mundo até o ano de 2100 como alerta a OMS (Organização Mundial de Saúde)?

MRB: A OMS faz projeções – e não previsões –  com objetivo de alertar a população e de induzir políticas públicas de saúde. Cabe lembrar que políticas públicas, como o nome nos remete, devem ser protagonizadas por todos e não apenas pelo Estado. Mas, voltando a pergunta não temos o domínio sobre o futuro e previsões são sempre arriscadas.

Referências bibliográficas:

https://www.bio.fiocruz.br/index.php/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao

https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2017/05/15/virus-da-febre-amarela-tem-mutacao-genetica-inedita-diz-fiocruz.htm

http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=114&sid=7

https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/trajetoria-do-medico-dedicado-ciencia-0 

https://www.infectologia.org.br/admin/zcloud/125/2017/02/FA_-_Profissionais_13fev.pdf 

SILVA, J.S, MARIANO. Z. de F, SCOPEL. I. A influência do clima urbano na proliferação do mosquito Aedes Aegypti em Jataí (GO) na perspectiva da geografia médica. HYGEIA, Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde, Uberlândia, v. 2. n. 5, p. 33-46, 2007. Disponível em: www.hygeia.ig.ufu.br/ . Acesso em: 24 julho 2017.

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