Laerte – Genial, polêmico e divertido (Entrevista)

Laerte – Genial, polêmico e divertido

Por Fernando Rebouças

Tiras e quadrinhos geniais, personagens como Piratas do Tietê, Gato e Gata, Hugo Baracchini, Overman entre outros imprimem a genialidade e o humor intenso do desenhista Laerte, conhecido pelas suas publicações na Folha de S.P e outros jornais do país e exterior. Tive a oportunidade de entrevistar o Laerte, leia a entrevista exclusiva que ele concede ao nosso site.

1 – Laerte, você é do tempo que para passar num vestibular não era necessário gastar fortunas com cursinhos. Quando iniciou seu interesse com os quadrinhos na sua infância e nos tempos de faculdade?

Não fiz cursinho meio porque a faculdade era a de Comunicações – naquele tempo a procura era bem pequena. Meu plano B era Arquitetura, no ano seguinte, se eu não passasse. Aí ia precisar de cursinho, sim…

Sempre li quadrinhos, desde criança. Talvez tenha me alfabetizado com eles e com anúncios de bonde. A primeira palavra que lembro ter escrito foi “hemorróidas” – de um anúncio de Hemovirtus.

2 – Em 1987, você lançou a histórica revista “Circo”. Fale desse projeto.

A revista foi ideia do Toninho Mendes, dono da Editora Circo. Convidou a mim e ao Luiz Gê para editá-la. A edição do Gê foi a grande responsável pela qualidade da revista Circo.

Depois que ele foi para a Inglaterra, pra ficar dois anos, eu não tive capacidade de mantê-la – o que se aliou, seja dito em caridade, aos momentos de crise econômica que o país passava.

3 – Em 1991, você começou a publicar as tiras do “Piratas do Tietê” na Folha de S.P, de onde surgiu a inspiração para criar os personagens e a temática das tiras?

Os Piratas apareceram numa aventura dentro da Chiclete com Banana, do Angeli. Como quase todos os meus personagens, eram pra ter se limitado a uma aparição. Acabei fazendo outras aventuras, dando o seu nome à revista que editei e à tira que publiquei (nome que veio substituir “Condomínio”).

Os personagens nasceram de uma combinação que muito me agrada – entre elementos de fantasia (no caso, a fantasia romântica do século 19 em torno da pirataria) e o cenário mais ou menos realista de uma cidade como São Paulo.

4 – Em 1992, você estava como redator no programa TV Pirata, nunca mais tivemos sátira igual na TV brasileira. Na sua opinião, perdemos esse nível de humor satírico em nossa sociedade, ou a TV, apesar de ser de plasma, resolveu ficar quadrada?

O que a tevê leva ao ar é fruto de um processo bem complicado. Talvez as energias criativas estejam, hoje, prospectando outras áreas – cinema, redes sociais na internet, palcos de comédia-em-pé. canais pagos etc.

Pra falar a verdade, não estou muito a par…

5 – Eu li o livro “Muchacha”, lançado em 2010, pela Cia das Letras. Há cenas bastante diretas e intensas num ambiente dos anos 50. Você se baseou em filmes ou quadrinhos daquele tempo para realizar o projeto?

Muchacha veio aparecendo como uma continuação do trabalho que reuni em “Laertevisão”: memórias minhas, de tevê, de revistas, cinema etc.

O seriado “Falcão Negro”, que me enchia de emoção, está citado ali, bem como o ambiente de cultura popular do fim dos anos 50.

6 – Em entrevista à revista Caros Amigos, em 2004, você havia analisado a postura de alguns jornais que, perante uma crise financeira ou reformulação, a primeira coisa que fazem é cortar as tiras ou o ordenado dos cartunistas. Sabemos que o quadrinho e a charge é essencial nos jornais e nas demais mídias brasileiras. Na sua opinião, o quadrinho ainda é visto como um morango sobre a torta?

“Nós” sabemos, mas por que ninguém mais sabe (que quadrinho e charge são essenciais)? Na minha opinião – ou melhor, na do departamento de pesquisa da maior parte dos jornais, sim, somos morangos.

7 – O que falta para o quadrinho nacional ser mais respeitado e procurado em todas as categorias temáticas?

Não sei, francamente. Acho que isso acontece ou não acontece independentemente de que análise possa ser feita.

Já enveredamos pela defesa da obrigatoriedade – que não foi efetivada; pela criação de prêmios como o HQMix – que funciona bem, claro; pela criação de salões de humor e quadrinhos…

Tudo isso adianta, de alguma forma – mas pra mim é difícil discernir a efetividade de cada iniciativa.

8- No início dos anos 90, você, o Angeli e o Glauco criaram as tiras de “Los Tres amigos”, fale dessa experiência que até hoje gera saudades nos leitores.

Los 3 Amigos nasceu de uma ideia do Angeli, de comemorarmos na Chiclete com Banana nossas múltiplas interparcerias. Resolvemos nos vestir de mexicanos e fazer umas fotos, inspirados no filme “The Three Amigos”, de John Landis. Gostamos do clima e fizemos uma história protagonizada pelos nossos alter-egos. A história ficou deliciosa, para nós e para os leitores – e resolvemos continuar.

Depois de vários anos o ciclo acabou, como tudo.

9 – Na revista Caros Amigos , você disse que o seu sonho seria ver uma tira sua derrubando um presidente ou governo. Hoje, qual seria o seu sonho?

Não lembro bem de ter dito isso – talvez tenha sido com ironia, no sentido de que nunca vi tal coisa (e nem acho possível ver).

Pensando bem, nem acho isso desejável!

Não tenho mais sonhos, hoje em dia – fora aqueles de quando durmo. E que me parecem muito mais realistas.

10 – Se Deus te oferecesse um livro de presente, qual você escolheria?

Deus não existe. Posso comprar meus livros eu mesmo…

11- Qual novo projeto você pretende tirar do forno?

Não tenho mais novos projetos. Hoje, tenho alguns processos que vou desenvolvendo, sem muita exigência de metas ou prazos. Penso numa história longa, mas ainda é algo bem nebuloso.

12 – Mande uma mensagem para os seus fãs.

Ei, gente! Super agradeço a fãzice de vocês!

(…)só gostaria de lembrar que o meu site não é atualizado há mais de dez anos e que várias de suas ferramentas não funcionam mais, que nem um parque de diversões fantasma. O novo site ainda está em planos)

Acesse o site do autor:

http://www.laerte.com.br/

Obs: Entrevista concedida em 2011, originalmente, para o portal MeuHeroi.com

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