Prof° Jefferson Simões – Entrevista

Prof° Jefferson Simões – Entrevista sobre Glaciologia

Por Fernando Rebouças

Primeiro cientista e explorador polar do Brasil; primeiro glaciologista brasileiro e pioneiro ao liderar a primeira expedição brasileira no interior do continente antártico.

O professor Jefferson Simões leciona no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, além de coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera.

É um cientista que enche o Brasil de orgulho, o professor Jefferson Simões inseriu os estudos em glaciologia no Brasil e em língua portuguesa. Leia a seguir a entrevista exclusiva que o cientista concedeu ao site Oiarte.com

 

1 – Prof° Jefferson Simões, para as nossas crianças, o que é Glaciologia e qual relação ela pode ter com o nosso dia a dia?

Glaciologia é o estudo do gelo, em todas as suas formas. É claro, estamos interessados principalmente nas geleiras, que constituí a maior parte do gelo do planeta Terra. Algumas curiosidades, 90% do gelo do mundo está na Antártida. É tanto gelo que se colocássemos ele sobre o Brasil, teríamos uma capa de gelo de quase 3 km de espessura!

2 – O senhor esteve mais de 17 vezes na Antártida, considerando todas as viagens, qual foi a mais desafiante?

Minha última missão, no verão de 2008/2009, quando realizamos a primeira expedição brasileira ao interior da Antártica. Nosso acampamento avançado estava a 2.100 km ao Sul da Estação Brasileira Comandante Ferraz, em um local onde a temperatura média é -33°C! Foi a missão mais avançada já realizada por brasileiros.

3 – Nos últimos anos, considerando as mudanças climáticas, quais as boas e más notícias o senhor presenciou na Antártida?

Creio que a melhor notícia é que temos hoje um rígido protocolo de preservação ambiental da região antártica. Onde todos, inclusive as estações e os cientistas, devem sempre avaliar o impacto ambiental de suas ações. Por outro lado, nos preocupa que área do buraco de ozônio ainda é grande (ainda não diminuiu) e que o norte do continente ainda esteja aquecendo muito rapidamente.

4 – Na sua opinião, há alguma relação entre a Antártida e as fortes chuvas de verão que costumam alagar o Brasil?

Não, diretamente não há.

5 – A Glaciologia no Brasil está no mesmo nível  em comparação com outros países como EUA, Alemanha, Rússia?

Ainda não. O programa de Glaciologia do Brasil é um dos mais novos. Enquanto esta ciência teve início no século XIX naqueles países, aqui só iniciou em 1990, quando retornei de meu doutorado na Universidade de Cambridge, Inglaterra. Mas neste período já estamos com o grupo científico mais forte da América Latina e como forte colaboração com pesquisadores da Alemanha, Chile, EUA e França. Temos agora no país 4 doutores de Glaciologia e o grupo já esta produzindo internacionalmente.

6 – Qual a diferença em efetuar pesquisas no Brasil, nos EUA, Europa e nas regiões polares?

As regiões polares ainda são muito isoladas e de difícil acesso. No caso da Antártica, estamos há milhares de quilômetros da base mais próxima. Temos que montar toda uma estrutura logística, como barracas, motos de neve, tratores polares, roupas especiais, travessias de milhares de quilômetros, isso tudo a temperaturas muitos baixas.

Cabe ressaltar que o único grupo brasileiro que vive nas geleiras polares é aquele que lidero. Mesmo o Programa Antártico Brasileiro trabalha na costa e no oceano. Nós, por outro lado, trabalhamos e vivemos sobre o gelo, dentro do continente. Ou seja, é um ambiente muito agressivo (frio, ventoso, seco, isolado).

7 – Na investigação sobre as camadas de gelo, de todo o histórico atmosférico registrado no gelo, na sua opinião, qual o dado mais misterioso os cientistas ainda busca desvendar?

Duas investigações muito interessantes: a procura de microorganismo (bactérias, polens, fungos), alguns em estado dormente que estão isolados no gelo há milhares de anos (alguns mais de 200 mil anos!)

A procura de micrometeoritos encontrados no gelo!

8 – No Brasil, o jovem que possui o interesse em se tornar um “glaciologista” poderá trilhar quais caminhos?

Glaciologia é um curso de mestrado ou doutorado. Assim, ele ou ela deverá fazer um curso de graduação como Geologia, Geografia, Física, Química. O treinamento em Glaciologia será dado depois. No Brasil, só temos está especialização no Programa de Pós-Graduação em Geociências na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas temos colaboração com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro para formar pessoal na área.

9 – Apesar da destruição da natureza e do aquecimento global, o planeta Terra tem salvação?

Sim, e sempre terá. Temos a consciência de preservar o equilíbrio ambiental pela própria sobrevivência da espécie do homem. Se continuarmos a degradar o ambiente, nós é que iremos pagar o preço.

10 – Quais as esperanças o senhor pode passar para as futuras gerações?

Temos um grande desafio adiante, aprendermos que a qualidade de vida e felicidade não é determinada diretamente pelo que consumimos. É a nossa capacidade de vivermos em equilíbrio, termos uma escala de valores que respeite o próximo e as outras espécies que determina nossa experiência neste mundo. Este é o desafio para a geração dos meus filhos e netos, e esta é minha esperança para um mundo melhor.

(Entrevista publicada originalmente no site www.oiarte.com)

 

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